
JOY DIVISION - CLOSER (1980)
A Carta Musical de Despedida de um (quase) Astro do Rock´n´Roll
Joy Division nasceu Warsaw (nome retirado da música “Warszawa” do álbum “Low” de David Bowie), em Manchester, no ano de 1977, muito embora o embrião da banda tenha surgido um ano antes. Contudo por haver um grupo londrino chamado "WarsawPackt" o grupo resolveu trocar de nome para evitar possíveis confusões. Assim, no início de 1978, e com uma demo com 4 músicas embaixo do braço, a banda troca de nome. O definitivo “Joy Division” veio do título de uma novela chamada "The House of The Dolls", de Karol Cetinsky. "Joy Division" é uma referência aos prédios, nos campos de concentração, onde, durante a Segunda Guerra Mundial, as jovens prisioneiras judias eram forçadas a se prostituírem para os oficiais. Exatamente por isso, a banda foi acusada de estar envolvida com algum movimento nazista, o que, óbvio, gerou alguns problemas e dissabores. Influenciado mais vivamente por Velvet Undergound, Stooges, David Bowie e Kraftwerk e, óbvio, pelo punk, o grupo foi um dos sustentáculos do rock no início dos anos 80. Depois que terminou, gerou o New Order, mas isso não interessa, ao menos aqui. Bernard Sumners (guitarra e teclados), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria), todos comandados pela voz angustiada e pela poesia atormentada de lan Curtis, reproduziam em suas canções a inquietude, o sofrimento, o desespero que pairavam sobre os indivíduos em um mundo miserável, ao menos assim enxergava Curtis. Embora a discografia da banda seja pequena, já que Ian Curtis se matou, aos 23 anos, em 18 de maio de 1980 (às vésperas de uma turnê aos EUA, que poderia firmar definitivamente o Joy Division no cenário internacional), há nela momentos musicais perfeitos. E nada mais perfeito do que a obra-prima “Closer”, a carta musical de despedida de Ian Curtis. Gravado sob uma abóbada de argamassa de pó de mármore, cal, gesso e areia, com a finalidade de obter a ressonância de uma capela, o álbum reproduz uma sonoridade densa, vazia e triste. Importante lembrar que à época o que existiam eram apenas os discos de vinil e suas capas bacanudas. Assim, uma, entre tantas curiosidades do álbum, é a de que ele não deixava claro ao ouvinte qual era o lado A e o lado B. Tanto fazia começar a ouvir o disco por qual lado fosse. A sensação gerada era a mesma. Outra curiosidade é que no encarte do álbum não há qualquer informação sobre a cena lancinante reproduzida na capa, a não ser que a fotografia é de Peter Saville. Escolhido um lado qualquer, o álbum abre, então, com “Atrocity Exhibition", que com sua bateria marcial e guitarra suja anunciava a sonoridade dura, crua e perturbadora a que estaríamos sujeitos a partir dali. Embora o clima inicial da segunda canção, “Isolation”, possa sugerir uma certa alegria a partir do som do teclado (copiado à exaustão por um sem-número de bandas por anos a fio), impera ali uma melancolia profunda, exposta na letra: “Rendido à autodefesa daqueles que só se preocupam consigo mesmos, mas quando a vida alcança a perfeição ela se parece com todo o resto”. Em "Passover", Ian Curtis começa cantando (escrevendo): “Esta é a crise que eu sabia que viria / Destruindo o equilíbrio que eu mantinha / Duvidando e perturbando e invertendo a direção / Imaginando o que virá depois / É este o papel que você quis viver?” para terminar com “Esta é a crise que eu sabia que viria / Destruindo o equilíbrio que eu mantinha / Virando-se para o próximo conjunto de vidas / Imaginando o que virá depois”. Putz, mais claro impossível!!! Ali ele verbaliza a inconformidade com a vida e a sua obsessão pela idéia da morte. Na seqüência vem "Colony", com uma sonoridade um pouco mais pesada e áspera que as anteriores. Nela, é mantida a linha deprê. Em “A Means to End”, ele continua a escrever as palavras de sua carta de despedida "Uma casa em algum lugar em solo estrangeiro / Aonde amantes magoados chamam! / E esta a sua meta, seus objetivos finais / Aonde comem os cães e os abutres? Ainda posso e vou partir/ Eu confiei em você". Repare na dor real contida na voz de Curtis quando ele brada “I put my trust in you”. De f... Virando o vinil, vem “Heart and Soul”, que, sob uma bateria marcial, um baixo seco, uma guitarra quase imperceptível e um sintetizador progressivo, Curtis cospe: "Instantes que podem trair-nos/ Uma jornada que conduz ao sol/ Sem alma e voltado à destruição/ A luta entre o certo e o errado". Sobre a faixa seguinte, “Twenty Four-Hours”, não há o que dizer. Leia a letra e perceba a arquitetura da carta de despedida de Curtis, construída sob uma poesia de extrema qualidade: “Então é isso, a permanência - orgulho estraçalhado pelo amor / E aquilo que uma vez foi inocência, virado e deitado de lado / Uma nuvem suspensa sobre mim marca cada momento / No fundo da memória, aquilo que uma vez foi amor / Oh, como acabei por perceber, como eu queria tempo / Colocado em perspectiva, tão difícil de encontrar, eu tentei / Só por um instante, pensei ter encontrado meu caminho / O destino desdobrado - foi o que vi escorrer do meu alcance / Pontos de luz em excesso, além de todo o alcance / Exigências solitárias por tudo que eu gostaria de guardar / Vamos dar um passeio fora daqui, ver o que encontramos / Coleção sem nenhum valor de esperanças e desejos passados / Nunca imaginei as distâncias que teria que percorrer / Todos os cantos mais escuros de um sentido que desconhecia / Só por um instante, ouvi alguém chamar / Olhei para além do dia, que jazia em minha mão / Não há absolutamente nada por lá... / Agora que percebi como tudo saiu errado / Tenho de achar alguma terapia, este tratamento é muito prolongado / No fundo do coração do lugar onde a simpatia reinava / Tenho de encontrar meu destino, antes que seja tarde demais”. ... A penúltima canção do disco é “The Eternal”, que, apesar de ser uma marcha fúnebre, é a mais bela canção do álbum. Os instrumentos se diluem. As sonoridades se diluem. E Curtis prossegue em sua carta, talvez pressentindo a que seria submetido pouco tempo depois: “A procissão passa, a gritaria se perde / Glória nas alturas aos entes queridos, agora falecidos conversavam aos brados em torno de suas mesas, sentados / Flores espalhadas e lavadas pela chuva”. Tudo termina com “Decades”, e seu teclado hipnótico que nos envolve e nos lança definitivamente para a atmosfera “curtiniana” de angústia, clausura e desalento. Ian Curtis era um sujeito perturbado, depressivo, obcecado com a idéia da morte e que, exatamente por isso, se enforcou. (Tal fato é magistralmente mostrado no filme “A Festa Nunca Termina” (24 Hour Party People), de Michael Winterbottom). Talvez por isso o Joy Division tenha obtido uma dimensão maior. Talvez não. O fato é que ainda que sua obra seja mínima, quantitativamente falando, o Joy Division foi um grupo que marcou seu nome no Rock. Seu peso musical pode ser notado até hoje, vide a influência que o grupo exerce (e exerceu) sobre uma carrada de bandas que fizeram dos passos musicais de Ian Curtis seu norte. Ian Curtis foi gênio. “Closer” foi a obra-prima na qual ele enunciou de forma categórica a tragédia que estava por vir, e da qual ele seria o personagem principal. “Closer” foi sua carta musical de despedida, que o tornou eterno.
A Carta Musical de Despedida de um (quase) Astro do Rock´n´Roll
Joy Division nasceu Warsaw (nome retirado da música “Warszawa” do álbum “Low” de David Bowie), em Manchester, no ano de 1977, muito embora o embrião da banda tenha surgido um ano antes. Contudo por haver um grupo londrino chamado "WarsawPackt" o grupo resolveu trocar de nome para evitar possíveis confusões. Assim, no início de 1978, e com uma demo com 4 músicas embaixo do braço, a banda troca de nome. O definitivo “Joy Division” veio do título de uma novela chamada "The House of The Dolls", de Karol Cetinsky. "Joy Division" é uma referência aos prédios, nos campos de concentração, onde, durante a Segunda Guerra Mundial, as jovens prisioneiras judias eram forçadas a se prostituírem para os oficiais. Exatamente por isso, a banda foi acusada de estar envolvida com algum movimento nazista, o que, óbvio, gerou alguns problemas e dissabores. Influenciado mais vivamente por Velvet Undergound, Stooges, David Bowie e Kraftwerk e, óbvio, pelo punk, o grupo foi um dos sustentáculos do rock no início dos anos 80. Depois que terminou, gerou o New Order, mas isso não interessa, ao menos aqui. Bernard Sumners (guitarra e teclados), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria), todos comandados pela voz angustiada e pela poesia atormentada de lan Curtis, reproduziam em suas canções a inquietude, o sofrimento, o desespero que pairavam sobre os indivíduos em um mundo miserável, ao menos assim enxergava Curtis. Embora a discografia da banda seja pequena, já que Ian Curtis se matou, aos 23 anos, em 18 de maio de 1980 (às vésperas de uma turnê aos EUA, que poderia firmar definitivamente o Joy Division no cenário internacional), há nela momentos musicais perfeitos. E nada mais perfeito do que a obra-prima “Closer”, a carta musical de despedida de Ian Curtis. Gravado sob uma abóbada de argamassa de pó de mármore, cal, gesso e areia, com a finalidade de obter a ressonância de uma capela, o álbum reproduz uma sonoridade densa, vazia e triste. Importante lembrar que à época o que existiam eram apenas os discos de vinil e suas capas bacanudas. Assim, uma, entre tantas curiosidades do álbum, é a de que ele não deixava claro ao ouvinte qual era o lado A e o lado B. Tanto fazia começar a ouvir o disco por qual lado fosse. A sensação gerada era a mesma. Outra curiosidade é que no encarte do álbum não há qualquer informação sobre a cena lancinante reproduzida na capa, a não ser que a fotografia é de Peter Saville. Escolhido um lado qualquer, o álbum abre, então, com “Atrocity Exhibition", que com sua bateria marcial e guitarra suja anunciava a sonoridade dura, crua e perturbadora a que estaríamos sujeitos a partir dali. Embora o clima inicial da segunda canção, “Isolation”, possa sugerir uma certa alegria a partir do som do teclado (copiado à exaustão por um sem-número de bandas por anos a fio), impera ali uma melancolia profunda, exposta na letra: “Rendido à autodefesa daqueles que só se preocupam consigo mesmos, mas quando a vida alcança a perfeição ela se parece com todo o resto”. Em "Passover", Ian Curtis começa cantando (escrevendo): “Esta é a crise que eu sabia que viria / Destruindo o equilíbrio que eu mantinha / Duvidando e perturbando e invertendo a direção / Imaginando o que virá depois / É este o papel que você quis viver?” para terminar com “Esta é a crise que eu sabia que viria / Destruindo o equilíbrio que eu mantinha / Virando-se para o próximo conjunto de vidas / Imaginando o que virá depois”. Putz, mais claro impossível!!! Ali ele verbaliza a inconformidade com a vida e a sua obsessão pela idéia da morte. Na seqüência vem "Colony", com uma sonoridade um pouco mais pesada e áspera que as anteriores. Nela, é mantida a linha deprê. Em “A Means to End”, ele continua a escrever as palavras de sua carta de despedida "Uma casa em algum lugar em solo estrangeiro / Aonde amantes magoados chamam! / E esta a sua meta, seus objetivos finais / Aonde comem os cães e os abutres? Ainda posso e vou partir/ Eu confiei em você". Repare na dor real contida na voz de Curtis quando ele brada “I put my trust in you”. De f... Virando o vinil, vem “Heart and Soul”, que, sob uma bateria marcial, um baixo seco, uma guitarra quase imperceptível e um sintetizador progressivo, Curtis cospe: "Instantes que podem trair-nos/ Uma jornada que conduz ao sol/ Sem alma e voltado à destruição/ A luta entre o certo e o errado". Sobre a faixa seguinte, “Twenty Four-Hours”, não há o que dizer. Leia a letra e perceba a arquitetura da carta de despedida de Curtis, construída sob uma poesia de extrema qualidade: “Então é isso, a permanência - orgulho estraçalhado pelo amor / E aquilo que uma vez foi inocência, virado e deitado de lado / Uma nuvem suspensa sobre mim marca cada momento / No fundo da memória, aquilo que uma vez foi amor / Oh, como acabei por perceber, como eu queria tempo / Colocado em perspectiva, tão difícil de encontrar, eu tentei / Só por um instante, pensei ter encontrado meu caminho / O destino desdobrado - foi o que vi escorrer do meu alcance / Pontos de luz em excesso, além de todo o alcance / Exigências solitárias por tudo que eu gostaria de guardar / Vamos dar um passeio fora daqui, ver o que encontramos / Coleção sem nenhum valor de esperanças e desejos passados / Nunca imaginei as distâncias que teria que percorrer / Todos os cantos mais escuros de um sentido que desconhecia / Só por um instante, ouvi alguém chamar / Olhei para além do dia, que jazia em minha mão / Não há absolutamente nada por lá... / Agora que percebi como tudo saiu errado / Tenho de achar alguma terapia, este tratamento é muito prolongado / No fundo do coração do lugar onde a simpatia reinava / Tenho de encontrar meu destino, antes que seja tarde demais”. ... A penúltima canção do disco é “The Eternal”, que, apesar de ser uma marcha fúnebre, é a mais bela canção do álbum. Os instrumentos se diluem. As sonoridades se diluem. E Curtis prossegue em sua carta, talvez pressentindo a que seria submetido pouco tempo depois: “A procissão passa, a gritaria se perde / Glória nas alturas aos entes queridos, agora falecidos conversavam aos brados em torno de suas mesas, sentados / Flores espalhadas e lavadas pela chuva”. Tudo termina com “Decades”, e seu teclado hipnótico que nos envolve e nos lança definitivamente para a atmosfera “curtiniana” de angústia, clausura e desalento. Ian Curtis era um sujeito perturbado, depressivo, obcecado com a idéia da morte e que, exatamente por isso, se enforcou. (Tal fato é magistralmente mostrado no filme “A Festa Nunca Termina” (24 Hour Party People), de Michael Winterbottom). Talvez por isso o Joy Division tenha obtido uma dimensão maior. Talvez não. O fato é que ainda que sua obra seja mínima, quantitativamente falando, o Joy Division foi um grupo que marcou seu nome no Rock. Seu peso musical pode ser notado até hoje, vide a influência que o grupo exerce (e exerceu) sobre uma carrada de bandas que fizeram dos passos musicais de Ian Curtis seu norte. Ian Curtis foi gênio. “Closer” foi a obra-prima na qual ele enunciou de forma categórica a tragédia que estava por vir, e da qual ele seria o personagem principal. “Closer” foi sua carta musical de despedida, que o tornou eterno.